sexta-feira, 15 de junho de 2018

Do pingado ao macchiato


         Foi a enfermeira escolhida para participar de uma oficina de capacitação sobre tabagismo como preparação para instituir um grupo de Cessação do Tabagismo na unidade de saúde onde trabalhava. Estava contrariada a princípio, pois não gostaria de abraçar essa ideia, mas percorrendo as estações de aprendizagem, passou a gostar do assunto...
   As facilitadoras orientaram que, na condução dos grupos nas unidades, fosse solicitado aos participantes que escolhessem um dia para parar de fumar, e que eles mastigassem cascas de limão, cravo e gengibre quando sentissem vontade de pegar um cigarro. E a orientação principal aos enfermeiros, que seriam coordenadores dos grupos, era: “ tentar quebrar o elo que liga ao hábito de fumar”!
           Neste ponto, uma instrutora afirmou que o hábito de tomar café e fumar era bastante presente entre os tabagistas, e sugeriu incentivar a troca do café por leite ou chá, até que os participantes dos grupos deixassem de tomar café em definitivo, e, com isso, também abandonassem o cigarro.
Incomodada com essas afirmações, pensando alto, a enfermeira interrompeu a facilitadora, alegando que largar o café e o cigarro poderia representar para esses grupos de fumantes duas perdas ao invés de uma, além de considerar desleal propor algo que ela mesma não conseguiria fazer, pois também amava tomar café. Sugeriu, então, ressignificar a experiência dos fumantes com o café, dissociando a bebida do hábito de fumar.
        A discordância gerou mal-estar, e a enfermeira foi interrompida com a seguinte sentença: “- Você pode seguir o manual ou fazer diferente. Fique à vontade!”. Assim, optou por permanecer calada até o final da oficina.
   Chegou em casa com a cabeça fervilhando de ideias para o grupo, e dentre elas, decidiu que levaria para cada encontro, uma garrafa com uma receita de café de sabor diferente, para que os tabagistas preparassem em casa, experimentassem, e relatassem a experiência no encontro posterior.
         Para o primeiro encontro, levou uma receita de café com limão siciliano, adaptação grosseira e simples do café argeliano mazagran. E como a aceitação foi boa, não parou mais de inventar para os encontros seguintes…
        Em pouco tempo, as receitinhas de café “viralizaram” na comunidade. No grupo, a enfermeira recebia sugestões de novos ingredientes, e alguns pacientes levavam também receitas criadas por eles. Movidos pela curiosidade para experimentar um novo tipo de café, os participantes permaneciam assíduos ao grupo, e alguns pacientes realmente tiveram êxito em deixar o cigarro. Outros, infelizmente, não conseguiram vencer o vício. Mas isso já era esperado…
  Encerrando o ciclo dos encontros do primeiro grupo, ela disse aos participantes: “- Nunca esqueçam que as sementes de todas as possibilidades estão dentro de nós. Assim, para tudo na vida, vocês podem seguir o manual ou fazer diferente. Fiquem à vontade!” 




É saber se sentir infinito, num universo tão vasto e bonito, é saber sonhar, então, fazer valer a pena cada verso daquele poema sobre acreditar… " Trem Bala, Ana Vilela.

sábado, 9 de junho de 2018

Efeito Sanfona


        Passou na padaria no retorno do trabalho disposta apenas a tomar uma sopa e encerrar o dia. Encontrou o ambiente todo decorado com a temática junina e a oferta de comidas típicas em grandes panelas de barro expostas para self-service. Foi o bastante para relembrar os festejos de São João de sua infância...
        Lembrou-se dos ensaios para quadrilha no pátio da escola, do constrangimento em dançar em par com um coleguinha pouco conhecido, do barulho das bandeirinhas de papel sacudidas pelo vento, e, é claro, das músicas de Luiz que tocavam repetidas vezes e marcavam todos os passos.
        Nesse período, a mãe seguia o exemplo de várias mulheres do bairro e fazia deliciosas cocadas para venda nas barraquinhas da Igreja, como forma de arrecadar fundos para uma reforma ou campanha católica. E de todas as festas juninas da cidade, talvez pela habilidade para cozinhar e boa ação daquelas senhoras, nenhuma tinha pratos típicos tão saborosos quanto aos das quermesses.
          Acabou rindo sozinha na mesa da padaria, lembrando o seu esforço nas brincadeiras de pescaria, jogo de argolas, boca de palhaço, derruba latas, e outras mais, só para ganhar o melhor dos presentes: uma caixa de estalinhos! E seguir feliz fazendo barulho e assustando pessoas distraídas nas filas das barraquinhas de comidas típicas...
      Começou a tocar uma música ambiente e ela recordou de uma festa junina na companhia do pai. Acostumada a festas animadas com caixas de som, ficou fascinada ao ver e ouvir um trio com sanfona, zabumba e triângulo. O pai começou a contar histórias das festas no interior, de um tal “correio elegante”, onde os “cabras” mais atrevidos enviavam bilhetes para moças comprometidas, e em como ele ajudava nisso, sendo culpado pela união de muito casal que estava trocado, vivendo com a pessoa errada e nem percebia.
           Como sua mãe rejeitou a dança nesse dia, o pai saiu dançando com ela, que ainda mal alcançava seu ombro. Lembrou que sentia as trancinhas batendo no rosto cada vez que rodopiava, e que o calor do vestidão rodado de chita não incomodou em nada aquela alegria tão grande.  
        Pararam somente para acompanhar o bingo. Cada um com seu palitinho de dente, furando a cartela e torcendo pra ganhar o cofrinho cheio de dinheiro que rodou a festa inteira. Não ganharam, mas o pai disse que ela era campeã porque marcou mais números que ele, e ela saiu feliz e vitoriosa por isso, na sua inocência infantil.     
        Deixou a padaria e no caminho para casa ainda surgiram muitas outras lembranças... Pela primeira vez considerou bonito o pai despedir-se deste mundo em um Dia de Santo Antônio. Pareceu bastante justo que um amante do toque da sanfona e da simplicidade da vida sertaneja partisse em mês junino...

"A fogueira tá queimando/ em homenagem a São João/ O forró já começou/ Vamos gente, rapa-pé nesse salão..." São João na Roça - Luiz Gonzaga











sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Lembranças de Maria

         Acostumada a passar uma parte das férias na casa da avó, Maria ganhou o gosto pela escuta de histórias e músicas antigas no contato  com os idosos da vizinhança, moradores ancestrais daquela pequena rua, de sentido único e pouco movimento.
         Com o sonho de ter uma pianista entre as netas, D. Francisca matriculou Maria em aulas de piano. Assim, logo cedo, a menina caminhava até o final do quarteirão para a casa de Dona Eridan, uma professora experiente, de formação musical tradicional em conservatório, que tentava inutilmente convencer Maria a tocar no compasso correto. Ela, no entanto, sentia a alegria da música tão forte em seu interior, que não encontrava correspondência entre a partitura diante de seus olhos e um som tão arrastado. E seguia tocando de maneira acelerada, aborrecendo aquela senhora, que sob hipótese alguma aceitava a releitura de uma criança para um clássico de Mário Mascarenhas...
         Terminada a aula, Maria atravessava a rua e entrava na mercearia de Seu Osmar. De mãos espalmadas e rostinho grudado no vidro do longo balcão de madeira, esforçava-se para ver todos os artigos expostos na prateleira. Com sua curiosidade infantil, vasculhava todo o estabelecimento, deixando seu rastro. Mergulhava as conchas dosadoras nos grandes sacos de mantimentos, colocava objetos no prato da balança para ver o movimento do grande pêndulo, e questionava Seu Osmar sobre cada item desconhecido para ela.
        O velhinho, muito paciente, criava histórias para explicar o funcionamento de uma lamparina, de um ferro de passar a brasa, de um filtro de barro, etc. E apesar de sempre deixar algum prejuízo em sua passagem, Maria garantia boas gargalhadas a Seu Osmar, recebendo como recompensa um punhado de balas sortidas retiradas do grande dispensador giratório de vidro.
         Muito arteira, a menina cruzava o corredor que ligava a mercearia ao armarinho de dona Isaura, e lá, cuidava em desorganizar as linhas e apetrechos de costura da esposa de seu Osmar. Gostava de fingir que atendia às clientes, medindo pedaços de tecidos na régua metro de madeira, ou embrulhando fitas e botões nos saquinhos de papel Kraft usados como embalagem. Dona Isaura, tão benevolente quanto o marido, admitia a brincadeira, observando tudo enquanto laçava punhos de rede no dedão do pé. E apesar da desordem toda, Maria nunca saía de lá sem retalhos de panos e enfeites para roupas de bonecas.
        Do outro lado da rua, escorados no portão, como de costume, estavam Seu Gregório e Dona Neusa. E Maria corria para mais uma visitinha...
       Em sua oficina no quintal da casa, o ancião, descendente de alemães, consertava toda sorte de aparelhos eletrônicos. E Maria bisbilhotava tudo! Caixas de tamanhos variados, com peças de todos os tipos, rádios, vitrolas e televisões de tubo. Equipamentos sofisticados que os donos nunca foram resgatar, funcionando perfeitamente, guardados como item de colecionador por Seu Gregório. Muito culto, poliglota, ele decidiu ensinar inglês para Maria, utilizando material impresso e discos de vinil de um curso antigo de línguas para crianças.
        No meio da conversa com ares de aula, Dona Neusa chegava com uma bandeja cheia de gostosuras. Fazia doces e salgados para vender, mas nunca prosperou com o negócio, pois ao menor elogio aos seus quitutes, fazia uma porção generosa deles gratuitamente para retribuir a delicadeza. Seu Gregório, por sua vez, compreendia o passatempo da esposa e não se importava com os gastos pra manter tal alegria. Para Maria, era outra aventura acompanhar Dona Neusa na cozinha e folhear todos aqueles livros de receita com ilustrações tão lindas...
        Quase na hora do almoço, a menina terminava seu ziguezague pela rua na casa da avó novamente, e desatava a relatar tudo o que tinha visto e aprendido com a vizinhança.   

        Foi crescendo e sentindo a partida de cada um desses personagens que povoaram e deixaram boas lembranças em sua infância. Disse não para as aulas de piano, e muitas outras vezes durante a vida para todos aqueles que não permitiam que ela experimentasse novas versões...

"Há um passado no meu presente, um sol bem quente lá no meu quintal,toda vez que a bruxa me assombra, o menino me dá a mão..."  Bola de meia, bola de gude -14 Bis





quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Um coração para Kelly

        Filha de pai militar, Marjorie recebeu uma educação bastante rígida em casa. Educação esta que foi complementada por freiras docentes na escola de orientação católica que frequentou desde tenra idade.
             Seu comportamento reservado e o uso de roupas antiquadas chamavam a atenção de seus parcos amigos de infância e motivavam o falatório da vizinhança. Ela, no entanto, seguia sua vida normalmente, recusando qualquer conselho ou interferência quanto a mudanças de hábito.
         Aprendeu a conviver com a morte logo ao nascer. Sobrevivente entre as cinco tentativas de gravidez da mãe, Marjorie carregava consigo o luto pelos outros quatro irmãos que não vingaram, e compensava a solidão de filha única registrando em várias agendas os pormenores dos acontecimentos vividos ao longo dos anos.
            A falta de quem deixou este mundo antes de sua chegada sempre a incomodou, e talvez explicasse um pouco sua maneira tristonha e reclusa de ser. Era estranho para Marjorie tentar decifrar seu passado pela fala dos pais, que traziam informações desconexas sobre os personagens que faltavam nas fotos e nas festas em família.
        Muitos parentes, como os avós que jamais conheceu, não despertavam um sentimento real de saudade, de maneira que observar fotos antigas não era suficiente para gerar lágrimas. Decerto não poderia haver vinculação afetiva quando não existiram olhares carinhosos ou gargalhadas gostosas como lembrança.
              Ela prosseguia sua existência premiada com pais cheios de saúde e longevidade, o que afastava um pouco o medo que sentia de perdê-los e tornar-se ainda mais sozinha neste mundo.
              Foi somente durante a faculdade de Psicologia que decidiu experimentar o amor... Eduardo, seu eleito, era um rapaz introvertido, avesso a festas e bebedeiras. Cursava Biblioteconomia e vislumbrou nos modos educados e discretos de Marjorie a companheira que almejava para suas tardes de leitura em casa e passeios tranquilos pelo parque da cidade.
             Amante das letras, o rapaz não cabia em si de satisfação ao perceber o gosto de Marjorie pelos livros, o que era evidente por sua assiduidade à biblioteca e pelo tempo que dispensava por lá. Estava completamente apaixonado pela moça de nome significativo e belo. Investiu em conversas demoradas regadas a café espresso, e precisou de muita persistência até conquistar em definitivo a confiança daquela garota de poucas palavras, e logo em seguida, seu afeto para todo o sempre.
            Decidiram casar alguns meses após o início do namoro, pois para eles, não havia mais tempo a perder.
           As duas famílias receberam a notícia do casório com uma mistura de felicidade e alívio. Os pais do noivo jamais imaginaram que ele tomaria tal decisão tão inesperadamente, pois já estava em torno dos quarenta anos, e jamais sinalizou qualquer intenção no sentido de sair de casa e estruturar sua própria família. Os pais de Marjorie, por outro lado, ansiosos por livrar a filha do caritó, trataram de apressar a cerimônia, que aconteceu de forma bem modesta.
         Marjorie revelou-se uma esposa exemplar. Após desvendar a natureza do amor carnal no leito de núpcias, dedicou-se ao marido de maneira intensa e comovente. Atendia com prontidão a todos os caprichos dele, sem dar margem para a mínima queixa.
           Na biblioteca municipal, Eduardo era o camarada conhecido por estar sempre de sorriso no rosto, exibindo uma felicidade invejável entre os colegas, considerando seu casamento uma decisão tão certeira quanto a jogada decisiva do xadrez, seu jogo favorito.
           No segundo ano de união, Marjorie engravidou da pequena Kelly e o casal descobriu que teria uma filha com cardiopatia congênita. A tristeza voltou a atormentar aquela menina que nunca soube lidar bem com a morte e o morrer. E entre tantas idas e vindas ao hospital no enfrentamento da doença, como mãe, ela precisou ressignificar sua ideia de finitude, para sair do estado de torpor que assumia a cada sinal de cansaço daquele imperfeito coração.
       Contrariando a gravidade de seu quadro clínico, Kelly alcançou os quatro anos de idade, e foi nesse momento, esgotadas as possibilidades terapêuticas convencionais, que seu nome foi inserido na lista de pacientes para transplante.
       A partir daí, mãe e filha praticamente fizeram morada no hospital. O pai exausto, trabalhava o dia todo e visitava a menina durante a noite, sem descanso. Ambos temiam que Kelly fosse embora a qualquer momento de distração deles, e seguiam vigilantes. Sem a chegada do novo coração, a contagem do tempo passou a ser em sentido inverso, pois cada dia parecia representar menos uma alvorada para a menina.
      Foi então que, em um dia chuvoso, durante o feriado de carnaval, a cidade onde moravam amanheceu estarrecida com a notícia de um acidente automobilístico envolvendo a família de um influente político local. Milagrosamente, dada a condição na qual o veículo foi encontrado a beira da estrada, quase todos os ocupantes saíram ilesos. Pai, mãe e babá sofreram escoriações leves, a filha adolescente fraturou uma perna, e apenas o caçula de cinco anos foi socorrido em estado grave.
     Por envolver figura pública, o episódio gerou muita repercussão. As aparições freqüentes do caso nos noticiários asseguravam a audiência e chegaram a motivar inclusive campanhas de apoio a criança enferma nas redes sociais. No entanto, passado quase um mês do acidente, sem maiores novidades, a mídia desinteressou-se e silenciou o caso.
       A criança evoluiu mal. E após o segundo exame neurológico confirmando a morte encefálica, a família, embora enlutada, disse sim para a doação de órgãos. E o novo coração de Kelly nunca esteve tão perto dela...
      Tudo preparado para o transplante mais aguardado por todas as mães acompanhantes  da unidade pediátrica, e Marjorie, mesmo envolta pela alegria daquela torcida toda, estava apavorada. Acompanhou e registrou a chegada do coração até o centro cirúrgico, e seguiu sua penitência de mãe durante toda a cirurgia, imóvel diante daquela porta imensa, tentando afastar maus pensamentos repetindo ave-Marias.
         Horas depois recebeu a notícia do sucesso do procedimento. Caiu de joelhos ao chão e chorou copiosamente toda a aflição guardada por anos. Durante os dias de recuperação até o retorno definitivo para casa, aprendeu a ser a nova mãe que a filha exigia e tudo transcorreu com tranquilidade.
        Cumprindo a promessa feita em momento de desespero, deixou de pagar o dízimo à igreja e revertia a mesma quantia em dinheiro em doações mensais para as mães internadas no hospital. Kelly tornou-se a nova carinha do transplante, representando campanhas de doação de órgãos até os onze anos de idade, quando não resistiu a espera de um novo procedimento cirúrgico...
       Marjorie, marcada para sempre pela história da filha, tornou-se novamente uma mulher reclusa e infeliz. O marido protestava, insistia que tentassem ter outro filho, mas ela não aceitava. Tornou-se péssima companheira, desleixada com o cuidado da casa e desatenciosa com Eduardo. Ele, inconformado, pediu o divórcio.
       Separada, sozinha no mundo após a morte dos pais, Marjorie criou um blog, um espaço virtual para troca de experiências com outras famílias de crianças transplantadas. Tomou gosto pela escrita, reuniu suas principais postagens e publicou um livro intitulado "Um coração para Kelly".
         Eduardo casou-se novamente, teve dois filhos e mudou de Estado após aprovação em concurso público. Nunca mais teve notícias de Marjorie, até se deparar com seu nome organizando livros em uma prateleira de best-sellers da biblioteca onde trabalhava. Tomou a publicação nas mãos e nunca mais separou-se dela.
         Semanas depois, sozinho no aeroporto, deixando tudo para trás, terminou a leitura que registrava os anos mais conturbados e intensos de sua vida a tempo de atender a última chamada para embarque no avião que retornava a sua terra natal.

      " Who can say where the road goes? Where the days flows? Only time...And who can say if your love grows as your heart chose? Only time..." 
Enya, Only Time

sábado, 17 de junho de 2017

SOS

     Após receber as chaves do quarto na recepção, logo na entrada principal, Alice conseguiu visualizar completamente aquela que seria sua nova morada. Avistou um pátio amplo, com imensa área verde e florida, ornamentado ao centro com uma imagem magnífica da santa padroeira da instituição.
     Olhou para as longas alamedas, com colunas largas, típicas de antigas construções, e enquanto caminhava foi analisando os quadros e placas comemorativas dispostos nas paredes, como estações de uma via sacra que terminou diante da porta do quarto trinta e três.
   No entanto, ao invés de entrar, decidiu atender ao badalar do sino que anunciava o almoço e dirigiu-se ao refeitório. Acreditava que seria uma bela oportunidade para apresentar-se e fazer amizades. Mas a ilusão logo se desfez...Constatou, observando pelas janelas entreabertas, que a maioria das hóspedes comia em suas acomodações, com o auxílio de funcionárias da casa.
    Foi então que percebeu que era exceção ali, pois a despeito do déficit visual causado pela catarata que teimou em não corrigir, estava lúcida e saudável nas proximidades de seus oitenta anos de vida.
   Após o almoço, foi até a capela, e contemplando o Santíssimo, pediu a Deus, como de costume, guarda e proteção aos filhos e netos. Guardava no coração a certeza de que em quinze dias, no seu natalício, os filhos reconsiderariam a decisão de deixá-la aos cuidados de um abrigo e voltariam saudosos para resgatá-la. E assim, mais fortalecida, voltou ao quarto.
    Dedicou toda a tarde para a organização dos objetos e lembranças diversas que couberam na mala. Ao anoitecer, passou a chave na porta e trancou-se ali, por longo tempo, solitária, repassando a vida limpo...

“Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma / Até quando o corpo pede
um pouco mais de alma/ A vida não para...”

Paciência, Lenine.

Praia Raiz x Praia Nutella

Parte I

           Era uma vez, em um reino muito distante, uma praia...
   Lá, as pessoas estendiam toalhas na areia e conversavam alegres e despreocupadamente. Crianças catavam conchinhas, erguiam castelos imaginários, jogavam bola ou se ocupavam em “enterrar vivo” aquele tio maluco que toda família que se preza tem.
         Famílias inteiras reunidas com total tranquilidade ao longo da orla marítima. Crianças de colo conhecendo o mar pela primeira vez, idosos matando a saudade de outros tempos, e turistas encantados com o espetáculo natural apresentado por tão linda cidade litorânea.
     Enquanto isso, alguns ambulantes ofereciam bronzeadores criados com fórmulas caseiras super eficazes, e outros tantos, carregavam caixas de isopor com picolés deliciosos, de procedência completamente desconhecida.
      A água do mar não era poluída, o que tornava o banho de mar a principal atração. Quando a fome batia, sempre era possível recorrer a uma frutinha ou a um suco trazido de casa, que adiavam um pouco mais o fim do passeio.
      E quando ficava realmente muito tarde, todo mundo saía pra completar a manhã do domingo de sol em uma churrascaria próxima.
     Chegando em casa, era hora de um bom banho, pra fazer o cabelo retornar ao seu estado natural, e deixar a água do chuveiro escorrer pelo ralo aquele monte de areia que permaneceu grudado entre os dedos dos pés.
     Depois disso, o corpo quente e os olhos vermelhos, embora incômodos, chamavam rapidinho o sono, com o balançar da rede, sem hora pra acordar...

Parte II
       Era uma vez, em um reino muito distante, uma praia...
      Lá, as pessoas eram disputadas como clientes por funcionários de inúmeras barracas, e podiam escolher acomodar suas famílias nas áreas: coberta, palhoça ou de guarda-sol.
     As crianças tinham diversão garantida em parques aquáticos super estruturados e atraentes, e os adultos, entretenimentos variados, de massagens a shows de música ao vivo.
      Não era possível manter conversas longas, uma vez que os ambulantes abordavam as pessoas a cada cinco minutos com uma infinidade de artigos, dos mais simples, como produtos regionais, até os mais sofisticados, como equipamentos eletrônicos.
     Sempre correndo apressadamente, garçons portavam cardápios que impressionavam pela variedade e alto custo dos produtos. A praticidade era tamanha, que permitia permanecer na praia comendo e bebendo, de maneira tão farta por todo o dia, quanto em um bom restaurante da cidade.
    A água do mar, imprópria para o banho, talvez justificasse o desfile de trajes e acessórios esportivos caros e elegantes que as pessoas exibiam, como em um desfile de moda. Talvez estivessem certos de que não sofreriam avaria alguma...
     E todos voltavam para casa, limpos e secos, com a escova impecável. Sem gosto nem cheirinho de mar, mas com a câmera do celular cheia de selfies incríveis para postar em sequência nas redes sociais.

“Quando estiver no dia triste /Basta o sorriso dela pra você ficar feliz/ Quando se sentir realizado /E dizer que encontrou o bem que você sempre quis...”
A Rosa e o Beija-Flor, Matheus e Kauan

quarta-feira, 10 de maio de 2017

BFF

     Paula chegou para o trabalho cheia de expectativas. Recém-formada, temia ser lançada na assistência direta aos pacientes e falhar. Temor maior pela inexperiência que pela falta de conhecimento científico. Porém, o que nem imaginava era que havia desafios muito maiores...
      Estava substituindo Jeane, uma colega muito querida por todos, e sentiu o desconforto e a rejeição daqueles que seriam a sua própria equipe.
   Uma enfermeira veterana na unidade de saúde vivenciava atônita a troca de profissionais. Mal acabava de despedir-se de uma colega, que encobria as lágrimas com uns óculos escuros, quando decidiu ir ao encontro da novata.
     No consultório, a recém-chegada estava igualmente mal, chorando baixinho.Tentou dizer algo antes de acolher aquela dor com um abraço que dispensou palavras, mas não conseguiu. Ainda assim, as duas compreenderam-se imediatamente.
     Os dias foram passando e por muitas vezes a veterana enxergou na novata aquela iniciante que foi um dia. Paula era uma menina com um coração cheio de vontade de ajudar a quem precisava e uma cabeça recheada de ideias para isso. No entanto, por já ter visto o seu esforço ser em vão inúmeras vezes, a veterana disse coisas muito duras para por abaixo aquele entusiasmo todo.
        Era uma tentativa, ainda que inconsciente, de proteger a outra, a esta altura já boa amiga, da decepção de ver seus ideais destruídos pelo peso dos desmandos de uma gestão que desvalorizava a singularidade e o potencial transformador humano.
    Porém, independente das limitações que encontrou pelo caminho, Paula agiu e transformou o atendimento em Saúde da Mulher na unidade. E todo mundo pôde assistir de perto o desenvolvimento de uma enfermeira desde o comecinho...
      Como esperado, a competência dela logo rendeu frutos. Foi aprovada em concurso público de outro município e precisou deixar o posto de saúde. Infelizmente, a vida não repõe bons amigos na mesma proporção em que os leva embora, o que torna essas despedidas bastante sofridas. E as companheiras de tantos sorrisos acabaram chorando...
      Paula levou a certeza de que precisava viver tudo aquilo, concluindo que investir em um cuidar com dedicação e afeto sempre vale a pena, embora nem sempre saia conforme imaginado. E a veterana permaneceu no mesmo lugar, a espera de novas enfermeiras, Jeanes, Paulas, Bias, e quem mais chegar, grata pelas lições desses encontros, que renovam dentro dela o amor pela sua arte.

“Sempre que eu preciso me desconectar/ Todos os caminhos levam ao mesmo lugar/ É o meu esconderijo, o meu altar/ Quando todo mundo quer me crucificar.../ Eu só quero estar com você!”

De fé, Humberto Gessinger